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Postado em: 12/04/2019

Vantagens e desafios da ILPF

O setor agropecuário vem sofrendo grandes transformações motivadas pelo aumento nos custos de produção e mercado mais competitivo, exigindo aumento na produtividade da atividade, qualidade e rentabilidade, sem comprometer o meio ambiente.

Para atingir tais objetivos, uma alternativa que nos últimos anos tem-se destacado é o uso de sistemas de integração que incorporam atividades de produção agrícola, pecuária e florestal, em dimensão espacial e/ou temporal, buscando efeitos sinérgicos entre os componentes do agroecossistema para a sustentabilidade da unidade de produção, contemplando sua adequação ambiental e a valorização do capital natural.

A concepção sistêmica dessa estratégia incorpora, também, outros atributos desejáveis ao agroecossitema no que diz respeito à sua adequação ambiental, como a manutenção das Áreas de Preservação Permanente (APPs) e de Reserva Legal (RL), reconhecendo os benefícios dos serviços ambientais por elas prestados aos sistemas de produção.

Atualmente, os sistemas de integração estão se expandindo, especialmente para produção de grãos, fibra, energia, florestas e bovinos de corte e leite, além de ovinos e caprinos, dependendo da região. A utilização desses sistemas, nas situações em que é possível a sua adoção, passa a ser de grande importância para a recuperação de áreas degradadas, tanto de pastagens como de lavouras.

Desta forma, podem-se classificar quatro modalidades de sistemas distintos:

1) Integração Lavoura-Pecuária ou Agropastoril: sistema de produção que integra o componente agrícola e pecuário em rotação, consórcio ou sucessão; na mesma área e em um mesmo ano agrícola ou por múltiplos anos.

2) Integração Pecuária-Floresta ou Silvipastoril: sistema de produção que integra o componente pecuário e florestal, em consórcio.

3) Integração Lavoura-Floresta ou Silviagrícola: Sistema de produção que integra o componente florestal e agrícola, pela consorciação de espécies arbóreas com cultivos agrícolas (anuais ou perenes).

4) Integração Lavoura-Pecuária-Floresta ou Agrossilvipastoril: sistema de produção que integra os componentes agrícola, pecuário e florestal em rotação, consórcio ou sucessão, na mesma área. O componente "lavoura" restringe-se ou não à fase inicial de implantação do componente florestal.

Os sistemas apresentados abrangem os sistemas agroflorestais (SAFs), que são classificados em: silviagrícola, silvipastoril e agrossilvipastoril, sendo portanto a ILPF uma estratégia que apresenta classificação mais abrangente.

Confira abaixo as principais vantagens e os principais desafios do sistema de integração:

Vantagens:

O sistema ILPF traz inúmeras vantagens, tanto do ponto de vista do produtor rural, como do ponto de vista ambiental e social. Confira abaixo uma lista de vantagens do sistema:

- Possibilidade de aplicação dos sistemas para grandes, médias e pequenas propriedades rurais;

- Controle mais eficiente de insetos-pragas, doenças e plantas daninhas, com a possibilidade de diminuição no uso de agrotóxicos;

- Melhoria de condições microclimáticas, pela contribuição do componente arbóreo: redução da amplitude térmica, aumento da umidade relativa do ar, diminuição da intensidade dos ventos;

- Aumento do bem-estar animal, em decorrência do maior conforto térmico;

- Possibilidade de uso de espécies e cultivares mais apropriadas para cada região;

- Possibilidade de redução da pressão para a abertura de novas áreas de vegetação natural;

- Plantas indesejadas, que normalmente ocorrem nas plantações florestais jovens, são substituídas por culturas de grãos e/ou forrageiras, tornando sua manutenção menos dispendiosa;

- Mitigação do efeito estufa pelo sequestro de carbono especialmente pelos componentes forrageiro e florestal;

- Promoção da biodiversidade, especialmente pela abundância de “efeitos de borda” ou interfaces, o que permite uma melhoria sinérgica, por favorecer novos nichos e habitats para os agentes polinizadores das culturas e inimigos naturais de insetos-pragas e doenças;

- Intensificação da ciclagem de nutrientes;

- Criação de paisagens atrativas e que possam inclusive favorecer atividades de turismo rural;

- Incremento da produção regional de grãos, carne, leite, fibra, madeira e energia;

- Aumento da competitividade das cadeias de carne nos mercados nacional e internacional, com produção de carcaças de melhor qualidade, por uma pecuária de ciclo curto, pautadas em alimentação de qualidade, controle sanitário e melhoramento genético;

- Aumento da produtividade e da qualidade do leite, inclusive na entressafra (período seco), também, em pasto, especialmente por pequenos e médios produtores;

- Dinamização de vários setores da economia regional;

- Redução de riscos operacionais e de mercado em função de melhorias nas condições de produção e da diversificação de atividades comerciais;

- Redução do processo migratório e maior inserção social pela geração de emprego e renda;

- Estímulo à qualificação profissional;

- Favorecimento à participação da sociedade civil organizada;

- Diversificação das atividades rurais, com melhor aproveitamento da mão-de-obra durante todo o ano;

- Aumento da cobertura do solo pela palhada proporcionada pelos restos das lavouras e das pastagens. Essa interação atua prevenindo as perdas por erosão (solo, água, matéria orgânica e nutrientes), estimulando a biota e a recuperação física do mesmo;

- Recuperação de nutrientes lixiviados ou drenados para camadas mais profundas do solo, especialmente pelas raízes das árvores e das forrageiras, e incremento da matéria orgânica do solo pela serapilheira e raízes mortas das árvores, das lavouras e das forrageiras;

- Possibilidade de realização de parcerias sólidas que ofereçam mais benefícios para proprietários de terras e arrendatários;

- Redução dos custos de implantação das árvores pelo cultivo de pastagens e/ou culturas anuais;

- Alternativa para o plantio florestal comercial e lavoura de grãos, permitindo a introdução da atividade em terras cujo potencial agropecuário é alto. Com isso, não são deslocadas as atividades agropecuárias, ao contrário, elas são mantidas em bases sustentáveis, o que pode reduzir a pressão para abertura de novas áreas para plantios;

- Aumento da capacidade de suporte das pastagens pela melhoria da fertilidade do solo e manutenção mais frequente das mesmas;

- Estímulo à substituição da forrageira por espécie mais produtiva;

- Aceleração do crescimento, em diâmetro, das árvores devido ao maior espaçamento;

- Custeio ou redução no custo de implantação das árvores e/ou reforma de pastagens, devido ao menor número de árvores plantadas (em alguns arranjos) e pela renda oriunda dos componentes agrícola e pecuário;

- Melhoria na qualidade da madeira produzida pela maior regularidade da espessura de anéis de crescimento, adequando-se melhor às necessidades da indústria;

- Devido aos cultivos intercalares de lavouras e consumo das pastagens pelos animais, existe a tendência de maior proteção contra fogo;

- Permite o desenvolvimento de madeira de alta qualidade, com espécies de árvores que são pouco utilizadas nos plantios florestais tradicionais, mas que possuem elevado valor, em projetos de ILPF em médio e longo prazos;

- Benefícios diretos e indiretos gerados pela preservação da biodiversidade, como na polinização das culturas;

- A diversidade de espécies e rotação de culturas ajuda no controle da erosão, no aumento da porosidade do solo e consequentemente da infiltração de água para recomposição dos lençóis freáticos.

Desafios

Apesar das enormes vantagens do sistema, existem também alguns desafios:

- Tradicionalismo e resistência à adoção de novas tecnologias por parte dos produtores;

- Exigência de maior qualificação e dedicação por parte dos produtores, gestores, técnicos e colaboradores;

- Necessidade de maior investimento financeiro na atividade;

- Retorno apenas em médio a longo prazo, especialmente, do componente florestal;

- Disponibilidade do volume de capital financeiro suficiente para investimento ou acesso ao crédito;

- Altos investimentos em infraestrutura para implantação de cada um dos componentes dos sistemas de integração;

- Falta de infraestrutura básica regional e mercado local para os produtos. A produção depende da disponibilidade e manutenção de máquinas e equipamentos, e também de fatores externos à unidade produtiva, como energia, armazenamento e transporte;

- Longas distâncias até as regiões consumidoras e as agroindústrias. Em algumas regiões, há dificuldade de aquisição de insumos como fertilizantes, sementes, mudas, agroquímicos e animais, bem como comercialização dos produtos;

- Pouca disponibilidade de pessoal qualificado, principalmente, de técnicos de nível superior;

- A adoção de novas tecnologias exige maior agilidade na validação e na transferência daquelas mais adequadas a cada sistema de integração, bem como na qualificação da mão-de-obra;

- Pouca ênfase aos sistemas de integração nas grades curriculares de cursos de ciências agrárias;

- Política governamental de incentivos e estímulos à adoção dos sistemas de integração ainda em desenvolvimento;

- Maior complexidade agregando riscos ao sistema, especialmente devido ao componente agrícola.

Apesar de alguns entraves iniciais à sua adoção, os sistemas de ILPF, por sua maior complexidade de gestão, acabam por incorporar posturas mais corretas pelo produtor, como, por exemplo, no manuseio e descarte dos resíduos gerados pela unidade de produção, incluindo embalagens de agroquímicos, águas de lavagem e esgotos, previstos na legislação.

Orientações

Os sistemas de ILPF devem ser adequadamente planejados, levando-se em conta os diferentes aspectos socioeconômicos e ambientais das unidades de produção. Eles podem ser adotados por qualquer produtor rural (pecuarista e/ou agricultor), independente do tamanho do estabelecimento agropecuário. Evidentemente, a forma e a intensidade da adoção do conjunto de tecnologias que compõem a ILPF dependerão, entre outros fatores, dos objetivos e da infraestrutura disponível de cada produtor.

O pecuarista, por exemplo, pode utilizar o consórcio ou a rotação de culturas graníferas com forrageiras para a implantação de pastagens ou para sua recuperação, no caso de estarem degradadas. Pode também implantar o sistema silvipastoril, visando à exploração de produtos madeireiros e não-madeireiros, além dos produtos da pecuária.

Por outro lado, o agricultor pode utilizar o consórcio ou a rotação de culturas graníferas com forrageiras para produzir cobertura morta de boa qualidade e em grande quantidade para o sistema de plantio direto (SPD) da safra seguinte. Por fim, aquele produtor que deseja exercer as atividades integradas pode utilizar a ILPF para implantar um sistema agrícola sustentável, utilizando os princípios da rotação de culturas e do consórcio entre graníferas, forrageiras e espécies arbóreas, de forma a produzir, na mesma propriedade, grãos, carne ou leite e produtos madeireiros e não-madeireiros ao longo de todo ano.

Um sistema sustentável de ILPF deve ser:

- Tecnicamente eficiente, considerando o ambiente no qual se encontra a propriedade e utilizando manejos e insumos adequados e de acordo com as recomendações oficiais;

- Economicamente viável, pela melhor utilização dos recursos e uso da terra, diversificação e maior estabilidade das receitas e diminuição dos riscos;

- Socialmente aceitável, por ser aplicável a qualquer tamanho de propriedade, aumentar e distribuir melhor a renda no campo e aumentar a competitividade do agronegócio brasileiro;

- Ambientalmente adequado, por preconizar a utilização de práticas conservacionistas e de melhor uso da terra.

Perspectivas

A introdução da componente florestal na atividade agropastoril certamente ocasionará uma complementação de benefícios. Enquanto a agricultura e a pecuária cobrem o fluxo de caixa negativo proporcionado pelo período de maturação do investimento florestal, este por sua vez incorpora ao sistema benefícios ambientais importantes do ponto de vista da sustentabilidade ambiental (ambiência animal e fixação de carbono etc.), da sustentabilidade econômica (poupança verde) e da sustentabilidade social por promover entradas de recursos distribuídas ao longo do tempo (desbastes e colheita final) permitem ao produtor e aos seus sucessores incentivariam permanência do jovem no meio rural.

Se parte da enorme superfície territorial do país hoje utilizada somente com pastagens (cerca de 159 milhões de hectares) for convertida em Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), poderá ser fundamental para melhorar a imagem do agronegócio brasileiro, ao mesmo tempo em que favorecerá a produção animal e a produção de produtos florestais e agrícolas.

Devido à crescente importância da ILPF, o EducaPoint oferece dois cursos sobre esse tema, incluindo um que fornece as bases para implantação:

Integração lavoura-pecuária-floresta: a 3ª revolução verde

Integração lavoura-pecuária-floresta: bases para implantação do sistema


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Fontes consultadas:

Sistemas de integração: o que são, suas vantagens e limitações - De Luiz Carlos Balbino, Armindo Neivo Kichel, Davi José Bungenstab e Roberto Giolo de Almeida
 
Integração Lavoura Pecuária Floresta - ILPF - Embrapa

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