Quais são os possíveis efeitos da guerra no agronegócio brasileiro?

Postado em: 23/03/2022 - 6 min de leitura

Quais são os possíveis efeitos da guerra no agronegócio brasileiro?
O conflito entre Rússia e Ucrânia pode trazer consequências indiretas para outras nações, inclusive o Brasil.
 
No agronegócio brasileiro, o Brasil depende de fertilizantes importados e a Rússia é a maior fornecedora do insumo. Além disso, o país europeu compra commodities e carnes do Brasil. Na visão somente de produtos agropecuários, a Rússia ficou na 22ª posição dentre os maiores importadores, com US $1,27 bilhão adquiridos em 2021 (participação de 1,06%), segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
 
A Ucrânia, por sua vez, é líder na produção de milho. Uma possível retirada do país do mercado internacional, diminuiria a oferta do cultivo, provocando uma alta no preço do grão, que é muito usado como ração, aumentando, assim, os custos de produção na pecuária.
 
Ambos os países se destacam na produção de trigo. As cotações do trigo têm alcançado as máximas desde o início da guerra na Ucrânia. Com isso, o CME Group, controlador da bolsa de Chicago, decidiu ampliar o limite para 85 centavos e o limite estendido – para US$ 1,30 por bushel.
 
Como a guerra interrompeu o fluxo de exportação nos portos do Mar Negro e do Mar de Azov, o comércio de trigo segue paralisado na Ucrânia e na Rússia. 
 
Fertilizantes
 
Antes mesmo do conflito, o mundo já enfrentava uma crise no setor de fertilizantes, com encarecimento dos preços e escassez no mercado. Os principais motivos eram problemas energéticos em países fornecedores da matéria-prima para esses produtos, como China, Rússia e Índia, e problemas logísticos por causa da falta de contêineres e navios..
 
Agora isso pode se estender ou até mesmo piorar. Isso porque, no mercado mundial, a Rússia domina 10% dos nitrogenados, 7% dos fosfatados e 20% dos potássicos, aponta Fábio Mizumoto, coordenador do MBA de agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
 
Considerando o Brasil, das mais 41 milhões de toneladas do produto importadas em 2021, o país foi a origem de 23%, segundo levantamento do Comex Stat.
 
De acordo com dados do Itaú BBA, considerando as matérias-primas para os fertilizantes, do total comprado pelo Brasil, vieram da Rússia:
 
- 20% dos nitrogenados;
- 28% do potássicos;
- 15% dos fosfatados.
 
A soja, por exemplo, principal commodity do Brasil, depende muito do fósforo e do potássio. Em possível impacto desses produtos, até as rações para a pecuária seriam afetadas, por sua vez, elevando o custo de produção das carnes e o valor para o consumidor.
 
Já o milho depende dos nitrogenados, que não possuem tantos outros fornecedores, explica.
 
A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, disse no dia 2 de março que o Brasil tem fertilizantes suficientes para o plantio até outubro e que o governo já trabalha desde o ano passado com alternativas para garantir o suprimento para o setor, no caso de escassez provocada pelo conflito entre Rússia e Ucrânia. 
 
“A safrinha de milho já está acontecendo, então o que precisava de fertilizantes já está garantido. A safra de verão, que será no final de setembro, outubro, é uma preocupação, mas também temos do setor privado a confirmação de que há um estoque de passagem suficiente para chegar até outubro”, disse a ministra, em conversa com jornalistas. 
 
O Brasil já trabalha na busca de novos parceiros para o caso de diminuir o recebimento de fertilizantes da Rússia e da Bielorrusia. Segundo a ministra, o Mapa tem um grupo de acompanhamento que conversa constantemente com as indústrias, com os produtores, com a parte de logística e de infraestrutura.
 
Além disso, a Embrapa estuda alternativas para aumentar a eficiência do plantio com o menor uso de fertilizantes. Também estão sendo trabalhadas estratégias de fomento e financiamento para aumento da produção de bioinsumos, fertilizantes organominerais, nanotecnologia e agricultura digital. 
 
Plano Nacional de Fertilizantes (PNF)
 
O Governo brasileiro lançou o Plano Nacional de Fertilizantes, elaborado desde o ano passado em parceria com outros ministérios e com a iniciativa privada, para reduzir a dependência do Brasil da importação de fertilizantes. 
 
O documento aponta que a implementação das medidas pode reduzir a dependência de produtos nitrogenados em 51% e fosfatados em 5%, e tornar o Brasil um exportador de potássio.
 
O texto ainda alerta para o agravamento da situação nos próximos anos caso nada seja feito.
 
De acordo com dados de 2020 trazidos pelo PNF, estima-se que a dependência brasileira de nitrogenados, fosfatados e de potássio seja de 95,7%, 72% e 96,4%, respectivamente.
 
O plano traz ainda propostas para a produção e uso de fertilizantes orgânicos.
 
A iniciativa desenhada pelo governo federal traça cinco objetivos estratégicos: modernizar, reativar e ampliar as plantas e projetos de fertilizantes existentes no Brasil; melhorar o ambiente de negócios no Brasil para atração de investimentos para a cadeia de fertilizantes e nutrição de plantas; promover vantagens competitivas na cadeia de produção nacional de fertilizantes para melhorar o suprimento do mercado brasileiro; ampliar os investimentos em PD&I (Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação) e no desenvolvimento da cadeia de fertilizantes e nutrição de plantas do Brasil; adequar a infraestrutura para integração de polos logísticos e viabilização de empreendimentos.
 
O plano traz ainda metas e ações divididas e escalonadas pelos prazos.
 
Efeito dominó
 
Apesar de a Ucrânia não ser grande fornecedora ou cliente do agronegócio brasileiro, uma crise afetaria o Brasil diretamente. Isso porque o país europeu é o 3° maior produtor de milho mundial.
 
Caso o país diminua a produção, no primeiro momento, com a menor oferta de milho, os preços subiriam ainda mais.
 
Mesmo favorecendo o agricultor que trabalha com o cultivo, seria mais uma causa para subir o preço da ração, deste modo encarecendo a produção pecuária.
 
Em paralelo, em países, como os Estados Unidos, a soja concorre com o milho por espaço no campo. Com o maior preço, os agricultores focariam em produzir o milho, diminuindo também a oferta de soja, afetando, de mesmo modo que o milho, a pecuária.
 
Tudo isso aconteceria em um cenário em que os estoques mundiais de grãos já estão apertados.
 
Para completar o cenário problemático, a Rússia é compradora importante de carnes brasileiras - importando mais de mais de US$ 167 milhões em 2021, ocupando o 12° lugar no ranking, segundo o Comex Stat.
 
O país também é destino de commodities. Em relação à soja, por exemplo, a Rússia adquiriu o valor superior a US$ 300 milhões no ano passado, ocupando a 12° posição em importadora brasileira do produto, aponta o Comex Stat.
 
Por isso, se a relação comercial com a Rússia for abalada, o Brasil pode ter perdas econômicas, prevê o professor da FGV.
 
Frango
 
O Brasil pode esperar também um aumento da demanda pela carne de frango - o que pode encarecer o produto. Isso porque a Ucrânia é um país exportador líquido do alimento, da ordem de 300 mil toneladas, segundo o Itaú BBA.
 
Caso este fluxo seja interrompido, o Brasil pode vir a capturar oportunidades de exportação na proteína avícola, por exemplo, na Arábia Saudita onde cerca de 10% das importações de carne de frango vêm da Ucrânia.
 
Mais informações: 
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Fontes:
 
Veja como o agronegócio brasileiro pode ser impactado pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia (https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2022/02/24/veja-como-o-agronegocio-brasileiro-pode-ser-impactado-pelo-conflito-entre-a-russia-e-a-ucrania.ghtml)
 
Ministra diz que Brasil tem fertilizantes suficientes até o início da próxima safra, em outubro (https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/ministra-diz-que-brasil-tem-fertilizantes-suficientes)
 
Plano Nacional de Fertilizantes prevê redução drástica de importações (https://www.canalrural.com.br/noticias/politica/conheca-o-plano-nacional-de-fertilizantes/) 

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