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Postado em: 12/07/2019

Alternativas na dieta sólida de bezerros: efeitos da inclusão de silagem de milho

Por Carla Maris Machado Bittar e Ariany Faria de Toledo

Artigo publicado anteriormente no site MilkPoint.


Já sabemos que o consumo precoce de alimentos sólidos é o fator determinante para desaleitar bezerras saudáveis e produtivas. Dietas que promovem a produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), especialmente o butírico e o propiônico, estimulam o desenvolvimento do epitélio ruminal, o que permite que a bezerra seja capaz de fermentar os alimentos sólidos e utilizá-los como fonte de energia. Assim, as bezerras estão aptas ao desaleitamento de forma eficiente, sem passar por grandes estresses durante a fase de transição.

O fornecimento de forragem na dieta auxilia no controle do pH ruminal através da ruminação e salivação, melhorando a manutenção da saúde ruminal, além de aumentar as concentrações de acetato. No entanto, quando o consumo de fibra é maior que o consumo de concentrado, a fonte de fibra deve ser de maior qualidade para que o consumo de nutrientes não seja reduzido, prejudicando o desenvolvimento ruminal e o desempenho animal. Todavia, o fornecimento de alimentos volumosos durante a fase de aleitamento ainda é controverso.

Uma meta-análise realizada recentemente destacou que a inclusão de forragem em dietas de bezerros em aleitamento promove aumento na ingestão inicial de sólidos, no ganho médio diário e no peso final (Imani et al., 2017). Dessa forma, alguns trabalhos encontraram na silagem de milho uma alternativa devido à disponibilidade no campo e ao baixo custo, fornecendo a partícula longa para estimular a ruminação e a salivação, e os grãos, como de milho e sorgo, que são ricos em carboidratos de rápida fermentação, melhorando a eficiência fermentativa e a digestibilidade da proteína (Castells et al., 2012).

Mas podemos utilizar a silagem de milho como única fonte de alimentos sólidos para bezerras em aleitamento?

Nesse sentido, um estudo realizado na Universidade de Wisconsin-Madison (Kehoe et al., 2019), teve como objetivo avaliar os efeitos da inclusão de silagem de milho na ração inicial, fornecida para bezerros do nascimento até o desaleitamento, que ocorreu na 7ª semana de idade.

Para condução do experimento, 45 bezerros Holandeses foram separados de suas mães ao nascimento, pesados e alojados em baias individuais. Após o nascimento, os animais receberam 4 litros de colostro nas primeiras 6 horas de vida, e foram alimentados com leite de transição durante os dois primeiros dias de vida. A partir do 3° dia de vida, os bezerros receberam leite pasteurizado duas vezes ao dia (50% manhã e 50% tarde), utilizando o protocolo de aleitamento “step up”, com o fornecimento de 5,8 litros do dia 3 ao dia 7; e 7,5 litros até o dia 52, quando o leite foi reduzido gradualmente e os bezerros foram desaleitados, sendo avaliados até o dia 56. A água foi oferecida diariamente ad libitum, e os animais foram monitorados da 1º até a 8º semana de vida, quando 3 animais por tratamento foram escolhidos aleatoriamente e abatidos para colheitas de epitélio ruminal e do jejuno, para avaliações microscópicas.

Dessa forma, com 3 dias de idade os bezerros foram distribuídos aleatoriamente em um dos 3 tratamentos:

  1. Concentrado: 100% ração convencional (58,25% de grão de milho inteiro, 1,75% melaço e 40% de Pelete B150, Purina Animal Nutrition);
     
  2. Concentrado + Silagem de milho: (60%) ração convencional, (40%) silagem de milho;
     
  3. Silagem: 100% silagem de milho.

As amostras das dietas foram coletadas mensalmente e submetidas a análise (Tabela 1):

Tabela 1. Composição das dietas experimentais para bezerros alimentados com dieta convencional, ração convencional e silagem de milho e silagem de milho.

Não houve efeito das dietas na ingestão de matéria seca (IMS), durante todo o período experimental, sendo observado consumo médio de 293, 348 e 245 g/d para os tratamentos concentrado, Concentrado + Silagem de milho e Silagem de milho, respetivamente (P = 0,19). Houve efeito de semana, com aumento no consumo conforme a idade dos animais (Figura 1).

As dietas experimentais não afetaram o ganho médio diário (GMD) no perído total do experimento (P = 0,25). Entretanto, houve interação entre tratamento × semana para GMD, sendo observado efeito na segunda semana (P = 0,045), no qual o tratamento concentrado + silagem de milho teve uma maior GMD quando comparado com os demais tratamentos. Não houve efeito significativo na eficiência alimentar (P> 0,05).

Tabela 2. Peso corporal, ganho médio diário e eficiência alimentar de bezerros alimentados com as dietas experimentais.

O aumento nas concentrações de β-hidroxibutirato (BHBA) sanguíneo é extremamente desejável para animais em crescimento, levando em consideração que esse metabólito é considerado um indicativo de desenvolvimento ruminal. Assim, animais que não apresentam este aumento em idades próximas ao desaleitamento não devem ser desaleitados pois ainda não tem o rúmen desenvolvido. Não houve efeito de tratamento sobre as concentrações de BHBA (Tabela 2), sugerindo que mesmo animais alimentados somente com o volumoso apresentaram adequado desenvolvimento ruminal.

Tabela 3. Variáveis do rúmen e do jejuno de bezerros alimentados com as dietas experimentais.

Em contrapartida, houve efeito no desenvolvimento do epitélio ruminal com papilas de animais alimentados somente com concentrado mais longas e mais largas (P < 0,001), aumentando em maior superfície e capacidade de absorção. No entanto, a densidade das papilas em uma área de 1 cm² foi menor quando comparados com os demais tratamentos (P = 0,025).  Por outro lado, os bezerros que receberam somente silagem de milho apresentaram papilas menores e mais finas (P < 0,001), com a densidade em uma área de 1 cm² semelhante do tratamento concentrado.

As papilas ruminais são projeções da mucosa para o interior do órgão e são responsáveis por aumentar a área de superfície de contato, ou seja, a área de troca entre o conteúdo ruminal e a corrente sanguínea. O tamanho e o formato das papilas são responsáveis pelo aumento da área absortiva, pois a maior parte da absorção de AGCC e outros metabólitos ocorrem em nível de papilas ruminais, sendo que os AGCC servem como estimuladores do desenvolvimento das papilas. Com isso, pode se explicar o fato de que quanto menor a produção de AGCC, há um menor desenvolvimento de papilas ruminais, e em consequência, uma menor área de absorção.

Além disso, os bezerros alimentados somente com silagem de milho apresentaram as menores criptas intestinais (P = 0,02), o comprimento total das vilosidades e a profundidade das criptas foi significativamente menor para esse tratamento quando comparado com os demais (P = 0,03). As paredes internas (mucosas) do intestino delgado são revestidas por inúmeras projeções papilares chamadas vilos ou vilosidades, que servem para aumentar a superfície de absorção dos nutrientes.

A digestão enzimática desenvolve-se nas primeiras semanas de vida do bezerro, quando este começa a ingerir nutrientes que exigem quebra, como por exemplo os dissacarídeos, o amido e os lipídeos. Portanto, é no intestino delgado (especialmente no duodeno e jejuno) onde ocorrerá a maior parte da digestão e absorção dos nutrientes (proteínas, lipídeos, minerais e vitaminas).

A maior parte dos carboidratos da dieta é fermentada no rúmen, mas uma parte do amido pode escapar e sofrer fermentação secundária no intestino. Em situações que a dieta possui um alto teor de nutrientes digestíveis totais (NDT) pode haver grande taxa desta fermentação secundária, o que resultando em maior estímulo ao desenvolvimento das criptas e das vilosidades intestinais, melhorando o desenvolvimento do epitélio do intestino.

Os resultados do presente estudo mostram que a inclusão de silagem de milho, seja parcial (inclusão de 40%) ou como único ingrediente da dieta total, apesar de não alterar o consumo de matéria seca, e consequentemente, não alterar o ganho de peso dos animais, resultou em menores áreas de absorção do epitélio ruminal. Da mesma forma, possivelmente houve decréscimo dos produtos de fermentação, uma vez que a dieta silagem de milho possui 9% menos NDT e 17% menos proteína bruta (PB) com relação a dieta concentrado (convencional), a qual foi formulada para atender as exigências do animal nessa fase. Assim, a silagem de milho como único alimento sólido reduziu não trouxe benefícios no que diz respeito a produtos de fermentação ruminal, que impactam positivamente no seu desenvolvimento, assim como o epitélio intestinal, que também foi afetado negativamente, resultando em menor área de absorção dos nutrientes.

Como conclusão, devemos ser cautelosos em utilizar alimentos que possuem ingredientes com baixo teor de PB, pensando em um período constante de crescimento e desenvolvimento, afim de evitar grandes prejuízos para os bezerros nessa fase de transição. Embora não tenha havido efeito no ganho de peso dos animais, não se sabe qual foi o efeito em altura dos mesmos. Além disso, o cuidado em balancear uma dieta para bezerros em aleitamento deve ser redobrado, quando se trata de redução dos nutrientes digestíveis totais da dieta, levando em consideração que o trato gastrointestinal dos animais nessa fase se encontra em pleno desenvolvimento e se torna dependente de uma dieta adequada.

Referências bibliográficas

S. I. Kehoe, * K. A. Dill-McFarland, Jacob D. Breaker, and G. Suen. 2019. Effects of corn silage inclusion in preweaning calf diets. J. Dairy Sci. 102:1–7. https://doi.org/10.3168/jds 2018-15799.

Imani, M., M. Mirzaei, B. Baghbanzadeh-Nobari, and M. H. Ghaffari. 2017. Effect of forage provision to dairy calves on growth performance and rumen fermentation: A meta-analysis and meta-regression. J. Dairy Sci. 100:1136–1150. https://doi.org/10.3168/jds.2016-11561.

Castells, L., A. Bach, G. Araujo, C. Montorro, and M. Terré. 2012. Effect of different forage sources on performance and feeding behavior of Holstein calves. J. Dairy Sci. 95:286–293. https://doi.org/10.3168/jds.2011-4405.

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