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Postado em: 04/09/2019

Efeito do bem-estar no controle sanitário do rebanho leiteiro: o que você precisa saber

Assim como os humanos, os efeitos crônicos do estresse causados pelos baixos níveis de bem-estar podem levar a mudanças metabólicas adversas na vaca leiteira e resultar em  efeitos significativos sobre sua saúde e produtividade. A vaca é suscetível a uma variedade de fatores de estresse psicológico, o manejo brusco pode fazer com que eles se tornem apreensivos e estressados em sua presença, e condições precárias de instalações podem levar a doenças diretamente ligadas ao estresse.

A saúde e o bem-estar de todos os animais do rebanho leiteiro são primordiais para uma produção de leite rentável e eficiente. Garantir que as vacas estejam felizes e saudáveis irá melhorar a fertilidade, o rendimento, a longevidade e a resistência a doenças, bem como reduzir os custos.

A conscientização, a promoção e o alcance de padrões elevados de bem-estar animal devem sempre ser uma prioridade nas práticas de criação de gado sustentável. Obter uma compreensão das necessidades comportamentais e fisiológicas de um animal são pedras angulares que nos permitem desenvolver sistemas de produção que promovem o bem-estar positivo.

O estresse provoca a liberação de vários hormônios, que fazem parte do mecanismo natural de "luta ou fuga" da vaca, evoluindo ao longo do tempo como resposta a situações perigosas. Esses hormônios, como o cortisol (hidrocortisona) e a adrenalina ajudam a preparar o metabolismo da vaca para os perigos que ela pode enfrentar, por exemplo, aumentando sua frequência cardíaca e respiratória, para ajudá-la a escapar de um predador. Deste modo, o estresse agudo durante a ordenha, leva à redução da produção de leite resultante da liberação de adrenalina, que provoca à descida incompleta do leite e ao aumento do leite residual.

Outras vezes, quando os animais experimentam regularmente essas mudanças metabólicas por meio do estresse, podem ocorrer alterações no cio, no momento do parto, quando são transportados de um prédio ou grupo de vacas para outro e quando as vacas estão sendo tratadas em situações fora da rotina.

Condições ambientais precárias têm um efeito de longo prazo e podem afetar negativamente vários sistemas metabólicos, como os sistemas imunológico e reprodutivo, através da produção de cortisol. Essa supressão imunológica pode levar a um aumento da incidência de mastite e das contagens de células somáticas.

Estresse tem várias definições, etiologias e consequências que não são necessariamente idênticos para todos os animais ou fatores estressantes. Uma vez que um estímulo estressante é reconhecido, há a organização de respostas biológicas a ele (autonômica, neuroendócrina, imune, comportamental). Caso estas respostas sejam suficientes para remover o estresse, funções biológicas podem manter-se inalteradas. Porém, caso as respostas sejam muito intensas, duradouras ou insuficientes para remover o estresse, o animal pode ter alterações no seu organismos resultando em estado pré-patológico ou patológico.

Respostas neuroendócrinas envolvem primariamente o eixo hipotálamo - pituitária-adrenal (HPA) e alterações na secreção de glicocorticosteroides, prolactina, somatotropina, hormônio estimulador da tiróide (TSH), hormônio luteinizante (LH) e hormônio folículo estimulante (FSH). Esta resposta tem maior impacto sobre funções biológicas e modula outras respostas ao estresse, como a resposta imune.

O sistema nervoso autonômo determina uma resposta muito aguda, o que se pode chamar de resposta de “Voar ou Lutar”. Esta resposta de curta duração que envolve os sistemas cardiovascular e gastrointestinal, glândulas exócrinas e adrenal tem poucas consequências para outras respostas ao estresse que pode também provocar a resposta imune inata, humoral ou adquirida.

O efeito do estresse sobre a resposta imune pode ser direta (ex. estresse calórico, balanço energético negativo) ou indireta (ex. eixo HPA – produção de glicocorticosteroides). A resposta comportamental é possivelmente a mais simples e menos custosa para o organismo pois ela envolve a pronta busca por remoção ou distanciamento do fator estressante.

Por exemplo, um animal sofrendo de estresse calórico busca sombra e água para minimizar o desconforto e  vacas subordinadas evitam comer ao mesmo tempo que vacas dominantes. O interessante,é notar que muito se discute sobre as respostas comportamentais e pouca atenção se dá a outras respostas ao estresse ou as consequências biológicas que, de maneira geral, são mais custosas para o animal.

Algumas respostas biológicas ao estresse, particularmente neuroendócrina, imune e comportamental podem ser mensuradas para estudar como um animal lida com situações estressantes. Porém, a intensidade e a duração de tais respostas define se terá consequências negativas para funções fisiológicas e até a sobrevivência do animal. Portanto, deve-se ter uma visão mais integrada das respostas e consequências do estresse ao invés de se focar em uma única.

Muitos que trabalham na área citam como inválido o argumento de um estresse que cause respostas biológicas (ex. comportamental), mas não cause alterações de estado fisiológico. Porém, na realidade  é impossível eliminar todas as fontes de estresse da vida de seres humanos ou animais de produção. O importante é limitar o acúmulo de situações estressantes e a ocorrência de estresse severo e crônico que comprometam a saúde e bem-estar do animal.


Impacto do estresse sobre o metabolismo

Estresse crônico e o acúmulo de vários fatores estressantes acarretam em alterações hormonais e estado nutricional que podem ter efeitos sistêmicos ou locais (parácrino). Uma vez que um fator estressante é reconhecido a secreção de fatores bioquímicos (neuropeptídios, citocinas, hormônios, aminoácidos, prostaglandinas) promove resposta inicial, seguida de estabilização do animal, até chegar a retomada de processos fisiológicos normais. 

Em termos de utilização de nutrientes, pode-se dizer que tecidos com alta taxa metabólica (ex. sistema nervoso central, glândula mamária) tem maior prioridade de utilização de nutrientes (nutriente por massa) do que tecidos com baixa taxa metabólica (ex. tecido adiposo). Apesar disso, os de baixa taxa metabólica podem ter impacto profundo em respostas ao estresse devido a sua regulação de consumo de nutrientes e processos inflamatórios.

Mudanças metabólicas durante estresse, são dependentes da relação entre sistema endócrino, sistema imune e estado nutricional dos animais. O estresse afeta a disponibilidade de nutrientes por regular diretamente o trato gastrointestinal, apetite, atividade/letargia e o sistema endócrino.

Quanto ao sistema endócrino, os hormônios mais importantes para regulação do metabolismo durante o estresse são:

1. Eixo somatotrópico (ações anabólicas) que inclui hormônio do crescimento (HC), fator de crescimento semelhante a insulina (IGF-1), proteínas ligadas a IGF-1, somatostatina e hormônio liberador de HC (HLHC);

2. Eixo adrenal (ações catabólicas) que inclui hormônio adrenocorticotrófico e glicocorticóides;

3. Eixo tireoidal que regula metabolismo basal, absorção celular de nutrientes e o eixo somatotrópico.

Durante estresse, o sistema endócrino é regulado por alterações na disponibilidade de nutrientes, no fluxo sanguíneo, na ocorrência de estresse oxidativo e secreção de citocinas

O esquema de priorização do uso de nutrientes por diferentes tecidos propostos por Elsasser (2000) sugere que o sistema imune é altamente regulado por estresse e tem prioridade por nutrientes sobre vários outros sistemas. Em contrapartida, o tecido adiposo é altamente regulado por estresse, mas tem pouca prioridade por uso de nutrientes. Apesar de o sistema imune (sistema linfóide + tecido conjuntivo + células imunes) representar apenas cerca de 5% da massa dos tecidos corpóreos, a ativação do sistema imune e resposta de fase aguda pelo fígado durante infecções resulta em priorização de nutrientes para o fígado para a produção de altas quantidades de proteínas de fase aguda (ex. haptoglobina) e utilização de glicose e aminoácidos por tecidos do sistema imune.

Mastite

Em geral, animais estressados tendem a ser mais susceptíveis a doenças, principalmente de origem infecciosa, e o estresse é mais facilmente percebido (por meio de indicadores metabólicos sanguíneos) justamente em rebanhos que apresentam alta incidência de mastite clínica.

Pesquisadores suíços avaliaram a relação homem-animal por meio da observação do comportamento dos ordenhadores e das vacas durante a ordenha, e da distância de fuga no curral de manejo. O estudo foi realizado em 46 propriedades leiteiras, com média de 27 vacas das raças pardo-suíça e holandesa alojadas em sistemas loose-housing e com acesso ao pasto durante o verão.

A coleta dos dados de comportamento e sanidade da glândula mamária foi realizada durante dois anos e meio. Dados do comportamento dos ordenhadores durante a ordenha foram registrados levando-se em consideração o tom de voz e o contato com os animais. Os resultados foram classificados como interações positivas, neutras ou negativas (de acordo com a Tabela 1). O comportamento das vacas também foi avaliado durante a ordenha. Para tanto, foram registradas a frequência de coices e de alternância da pisada.

No curral de manejo foi mensurada a distância de fuga dos animais, definida como a distância máxima em que a vaca permite a aproximação de um humano. Todos estes fatores foram correlacionados com variáveis ligadas à sanidade da glândula mamária, como CCS, porcentagem de quartos mamários com CCS acima de 100.000, porcentagem de quartos com mastite e ocorrência de novas infecções.

Tabela 1: Esquema de agrupar as interações táteis e acústicas dos ordenhadores classificadas como positivas, neutras e negativas (Waiblinger et al., 2002).

O comportamento mais frequente entre os ordenhadores foi o neutro (com 1,94 atitudes neutras por vaca ordenhada) e o positivo (com 1,50 atitudes positivas por vaca ordenhada). Comportamentos negativos foram os menos observados, significando apenas 1,8% de todas as interações (0,08 atitudes negativas por vaca ordenhada). A distância de fuga média foi 0,26 metros.

Em três das quatro variáveis relacionadas à sanidade da glândula mamária, a porcentagem de interações positivas foi associada à melhor sanidade da glândula (menor porcentagem de quartos mamários com CCS acima de 100.000 células/mL, menor porcentagem de quartos com mastite e CCS mais baixas). Além disso, em fazendas com maior porcentagem de vacas com distância de fuga maior do que 1 metro, a porcentagem de quartos mamários com elevada CCS foi maior do que rebanhos com distâncias de fuga menores do que 1 metro.

Dentre todas as relações entre o ordenhador e o animal, a que demonstrou maior influência sobre a CCS e porcentagem de quartos mamários com mastite clínica e subclínica, foram as interações positivas com a vaca durante a ordenha, ou seja, toque e voz suaves na condução do animal. Além disso, a prevalência de vacas no rebanho com distância de fuga maior do que 1 metro foi associada a maior porcentagem de quartos mamários com CCS acima de 100.000 células/ml.

Um fato curioso sobre a prevalência de novas infecções é sua correlação com a ocorrência de coices durante a ordenha. Em fazendas com ordenhadeiras mecânicas, quando o animal chuta e o conjunto de ordenha cai no chão, o ar contaminado com as fezes é sugado para o interior da tubulação do equipamento, o que predispõe a contaminação do leite e novas infecções intramamárias nas vacas ordenhadas na sequência.

Esses resultados sugerem que a relação entre o tratador e/ou ordenhador e o animal é relevante para a sanidade da glândula mamária, especialmente ao considerar a capacidade de resposta do sistema imune frente a uma infecção. Interações positivas reduzem o medo a humanos e consequentemente o estresse em vacas leiteiras, já que são constantemente manejadas. Portanto, pode-se dizer que interações positivas, além de proporcionar o bem-estar das vacas, estão relacionadas à melhor função imune, o que previne altas CCS, novas infecções e prevenção de casos crônicos de mastite.

Estresse calórico, metabolismo e sistema Imune

Vacas lactantes são sensíveis ao índice de temperatura/umidade > 68. Até recentemente acreditava-se que a redução na produção de leite devido ao estresse calórico era resultante do aumento das necessidades de manutenção e a diminuição na ingestão de matéria seca (IMS).

Apesar de ser difícil de quantificar exatamente o aumento das necessidades de manutenção durante o estresse calórico, acredita-se que este seja aproximadamente 25 a 30%. Além disso, um dos mecanismos de proteção contra o estresse calórico seria a diminuição da IMS para diminuir a produção de calor, particularmente em ruminantes.

Porém, estudos recentes demonstraram que a diminuição da produção de leite durante o estresse calórico também é devido a alterações metabólicas. As mais evidentes alterações endócrinas e metabólicas são:

1. Aumento nas concentrações de insulina;
2. Manutenção das concentrações de ácidos gráxos não esterificados (NEFA);
3. Maior desacoplamento do eixo somatotrópico, com aumento da concentração de HC e diminuição na concentração de IGF-1.

O aumento das concentrações de insulina resulta em aumento da utilização de glicose por tecidos (ex: tecidos muscular e adiposo) que normalmente estão em segundo plano em relação à glândula mamária para a utilização de glicose.

A baixa concentração de NEFA devido à diminuição da lipólise e o suprimento limitado de ácidos graxos voláteis devido a diminuição da IMS resultam em maior oxidação de glicose e utilização de aminoácidos para gliconeogênese. Desta forma, produção de leite é limitada porque a habilidade da vaca em resguardar glicose para produção de lactose é afetada durante estresse calórico.

As alterações metabólicas decorrentes do estresse calórico afetam também o sistema imune de vacas em transição e o crescimento de bezerros no útero. Alguns pesquisadores demonstraram que a falta de resfriamento durante o pré-parto (46 d antes do parto) resultou em bezerros mais leves ao nascimento, redução na produção de leite e menor eficiência alimentar. Além disso, vacas que não foram resfriadas durante o pré-parto tiveram menor concentração de IgG durante o pré-parto e neutrófilos com atividades fagocitárias e oxidativas comprometidas no pós-parto.

Impacto do estresse calórico na reprodução

Considerando o comportamento das vacas que estão em estado de estresse calórico, não causa surpresa de que tantos estros não sejam detectados. Em um estudo na Flórida, por exemplo, mais de 40% dos períodos de estro não foram detectados nos melhores meses. Nos meses piores, associados ao estresse térmico, o índice de falha de detecção de estro chegou a 75-80%. A dificuldade de detecção de estro durante o verão acontece, pois o calor reduz tanto a duração do estro quanto o número de montas.

A retenção de placenta, que aumenta em situações de estresse calórico, trará um atraso de 15 dias para a vaca emprenhar, diminuindo em 250 kg/leite na lactação, prejuízos que somados, podem custar em torno de R$300,00 a cada caso de retenção de placenta ocorrido na fazenda. Sabemos que no verão os casos de retenção aumentam consideravelmente. Ainda teremos os custos indiretos da retenção, que são: menor produção de leite no pico de lactação (em torno de 3,5kg/vaca), em torno de 30 dias a mais no período de serviço e menor taxa de prenhez (35% menor).

Diversos pesquisadores têm mostrado que as vacas sofrem mais problemas com estresse térmico de acordo com a região onde produzem o leite. Eles avaliaram a taxa de não retorno ao cio em dois estados americanos, a Geórgia, com clima temperado e na Flórida, com clima sub-tropical e essa taxa aumentou de 60 para 210 dias. Um estudo avaliou que sempre que o THI ultrapassou 72, as vacas foram detectadas menos em estro e a taxa de concepção foi menor. Em outra fazenda, a taxa de concepção caiu de 66 para 35% quando o THI foi de 68 para 78 dois dias antes da inseminação.

Conclusões

Portanto, fica claro que questões relacionadas ao bem-estar das vacas leiteiras causam um quadro geral de estresse e queda na imunidade, que afetam todo o sistema produtivo e causam impactos em diversos aspectos sanitários do rebanho.

Vacas estressadas por fatores relacionados ao manejo nutricional ou ambiental apresentarão piores índices reprodutivos, maior incidência de doenças reprodutivas, maior incidência de doenças infecciosas, entre outros fatores.

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Fontes consultadas

Consequências do estresse sobre imunidade, metabolismo e desempenho de vacas peri-parto - Parte 1 (https://www.milkpoint.com.br/colunas/jose-luiz-moraes-vasconcelos-ricarda-santos/consequencias-do-estresse-sobre-imunidade-metabolismo-e-desempenho-de-vacas-periparto-parte-1-91044n.aspx)

Consequências do estresse sobre imunidade, metabolismo e desempenho de vacas peri-parto - Parte 2 (https://www.milkpoint.com.br/colunas/jose-luiz-moraes-vasconcelos-ricarda-santos/consequencias-do-estresse-sobre-imunidade-metabolismo-e-desempenho-de-vacas-periparto-parte-2-91543n.aspx)

Os prejuízos causados pelo Estresse Térmico (https://www.milkpoint.com.br/empresas/novidades-parceiros/os-prejuizos-causados-pelo-estresse-termico-80434n.aspx)

Bem estar de vacas leiteiras afeta a ocorrência de mastite (https://www.milkpoint.com.br/colunas/marco-veiga-dos-santos/bem-estar-de-vacas-leiteiras-afeta-a-ocorrencia-de-mastite-204175n.aspx)




 

 

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