Colostragem de bezerras leiteiras: o que você precisa saber?

Postado em: 18/03/2022 - 5 min de leitura

Colostragem de bezerras leiteiras: o que você precisa saber?
A colostragem adequada de bezerras é um dos aspectos mais importantes para o sucesso na criação de fêmeas leiteiras de reposição e, consequentemente, para evolução genética dos rebanhos. A transformação de bezerras em vacas está associada a inúmeros eventos. No entanto, se a colostragem não for bem feita, as taxas de mortalidade sobem e as bezerras que sobrevivem não se tornam vacas de alta produção, devido à ocorrência de doenças e às baixas taxas de crescimento normalmente observadas.
 
As bezerras nascem sem anticorpos, devido ao tipo de placenta dos ruminantes, e, por isso, dependem do consumo de colostro para as defesas no início da vida. Além disso, ao nascer, este animal sofre uma série de alterações metabólicas, muitas das quais vão exigir “combustível metabólico”, que num primeiro momento é exatamente o colostro, um alimento rico em gordura e proteína. 
 
Os principais aspectos da colostragem são: tempo de fornecimento, volume de fornecimento e qualidade do colostro. A qualidade de colostro foi durante muito tempo somente avaliada em função das concentrações de anticorpos (IgG), mas é importante que sua carga bacteriana também seja considerada.
 
Muito embora se tenha uma ideia de que o colostro é importante para o início da vida das bezerras, devido aos efeitos mais imediatos relacionados à transferência de imunidade passiva e proteína e energia, a colostragem tem também muitos efeitos de longo prazo. Vários trabalhos de pesquisa já demonstraram que existem altas correlações entre eficiência de colostragem e redução da mortalidade após o desaleitamento, aumento nas taxas de crescimento, redução na idade ao primeiro parto, aumento na produção na primeira e segunda lactação, além de menor risco de descarte na primeira lactação. 
 
Estes efeitos têm grandes impactos nas planilhas de custo dos rebanhos, já que os animais em crescimento são considerados improdutivos, pois não trazem retorno financeiro imediato, sendo um investimento de longo prazo. À medida que estes efeitos são observados, tem-se maior número de fêmeas de reposição no rebanho, havendo possibilidade de venda de animais; menor idade ao primeiro parto, com retorno financeiro sendo alcançado em idades mais jovens; e maior produção de leite, que é o que realmente vai pagar as contas.

Recomendações
 
As recomendações de colostragem em termos de tempo de fornecimento até pouco tempo eram de que o animal deveria receber colostro até no máximo 6h após o nascimento, pois neste período o intestino tem maior capacidade de absorção de anticorpos. Após estas 6h, esta capacidade vai sendo reduzida, até que por volta de 18-24h o intestino não absorve mais estas grandes moléculas. Quanto ao volume de fornecimento, a recomendação era de que deveria ser de 10% do peso ao nascer da bezerra, ou seja, bezerras nascidas com 40 kg, deveriam receber 4L de colostro.
 
A concentração mínima de IgG para que o colostro fosse considerado de qualidade era de 50 mg/mL e deveria ter menos que 100.000 UFC/mL. A combinação da qualidade e do volume ingerido deveria resultar em uma dose entre 150-200g de IgG, muito embora alguns trabalhos mostrem que de 100 a 150g de IgG seriam suficientes. 
 
Porém, as recomendações de colostragem foram revistas recentemente por um grupo de pesquisadores que trabalha há muitos anos com o assunto (Godden et al., 2019; Lombard et al., 2020). Nesse novo consenso sobre o protocolo de colostragem, recomenda-se o fornecimento nas duas primeiras horas após o nascimento, o que gera uma demanda de maior visualização da maternidade e até ronda noturna.
 
A dose de IgG consumida passou dos 150-200 g para mais de 300 g de IgG, o que deve ser conseguido através de uma refeição adicional de colostro. Assim, além dos 4 L (10% peso ao nascer) na primeira refeição (2h após o nascimento), a bezerra deve receber mais 2L de colostro (5% Peso ao nascer) no período de até 6-8h após o nascimento. O conceito de qualidade continua sendo como aquele colostro com IgG superior a 50 mg/mL e menos que que 100.000 UFC/mL, muito embora já existam indicações de que o ideal fosse fornecer colostro com mais de 80 mg/mL e menos de 50.000 UFC/mL.

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Falha na transferência de imunidade passiva (FTIP)
 
Apesar da conhecida importância da transferência adequada de imunoglobulina (Ig) colostral para a saúde e sobrevivência de bezerro, a falha na transferência de imunidade passiva (FTIP) continua a ser um grande entrave na produção leiteira. Uma vez que bezerros ao nascimento têm baixos níveis séricos de Ig, tornam-se totalmente dependentes do consumo de colostro para que haja proteção imunológica durante as primeiras semanas.
 
Muitos estudos indicaram que a FTIP é um importante fator de risco na incidência e gravidade de doenças entéricas e respiratórias na fase de aleitamento, doenças que são as principais causas de morte. Consequências de longo prazo da FTIP incluem aumento da idade ao primeiro parto e efeitos da produção de leite durante a primeira e segunda lactação.
 
É importante ter em mente que o tempo de fornecimento de colostro após o nascimento, qualidade e volume do colostro apresentam uma ação sinérgica para evitar falhas na transferência de imunidade passiva.
 
Mesmo com todas estas recomendações disponíveis já há algum tempo, ainda existe muita ineficiência no processo. Muitos produtores ainda lidam com o grande fantasma da falha na transferência de imunidade passiva, levando a altas taxas de mortalidade e/ou morbidade, o que aumenta o custo de produção do rebanho e traz grande frustração ao produtor e aos tratadores. Mesmo em propriedades bastante focadas na criação de bezerras leiteiras, ainda existe espaço para melhoria na eficiência de colostragem.
 
Assim, além de haver necessidade de correção dos protocolos nas fazendas com baixa eficiência de colostragem, existe uma janela de oportunidade para melhorar ainda mais os índices nas fazendas com alta eficiência. 
 
Embora ocorra uma ampla orientação sobre a importância de colostragem adequada para a sobrevivência e saúde de bezerros recém-nascidos, ainda é necessário muito esforço para aumentar conscientização dos produtores sobre as boas práticas de manejo de bezerros recém-nascidos com intuito de prevenir FTIP, de forma a melhorar a saúde dos animais e consequentemente reduzir o uso de antibióticos na fase de cria.
 
Mais informações: 
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Telefone: (19) 3432-2199
WhatsApp (19) 99817- 4082 

Fontes:
 
Colostragem: você já readequou seu manejo? (https://www.milkpoint.com.br/colunas/carla-bittar/voce-ja-adequou-seu-manejo-para-as-novas-recomendacoes-de-colostragem-220297/)
 
Godden, S. M., J. E. Lombard, and A. R. Woolums. 2019. Colostrum management for dairy calves. Vet. Clin. North Am. Food Anim. Pract. 35:535–556. https: / / doi .org/ 10 .1016/ j .cvfa .2019 .07 .005.
 
J. Lombard, N. Urie, F. Garry, S. Godden, J. Quigley, T. Earleywine, S. McGuirk, D. Moore, and others0Consensus recommendations on calf- and herd-level passive immunity in dairy calves in the United States. Journal of Dairy Science. In Press. https://doi.org/10.3168/jds.2019-17955.
 
Transferência de imunidade passiva em bezerros leiteiros (https://www.milkpoint.com.br/colunas/carla-bittar/fatores-que-influenciam-na-transferencia-de-imunidade-passiva-em-bezerros-leiteiros-211527/)
 

O objetivo deste curso é apresentar os principais sistemas de aleitamento, suas vantagens e limitações, auxiliando técnicos e produtores no momento de definir o método que será utilizado no manejo das bezerras. A instrutora desse curso é a professora do Departamento de Zootecnia da Esalq/USP, Carla M. M. Bittar, que desenvolve pesquisas na área de nutrição, manejo e metabolismo de animais de reposição e possui grande experiência na área.

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