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Postado em: 13/06/2019

Como a temperatura afeta a ingestão de alimentos e água da vaca?

O clima atua diretamente sobre os animais, principalmente através de seus agentes. A temperatura é neste aspecto, o componente do clima de maior importância. Em regiões tropicais, onde a temperatura ambiente excede por longo período de tempo, o limite de tolerância ao calor, a redução na ingestão de alimentos funciona como uma estratégia fisiológica do organismo para a homeotermia.

Estudos mostram que, possivelmente, o excesso de calor ambiental atue de forma direta no hipotálamo da vaca, com inibição da atividades no centro do apetite, reduzindo assim a ingestão de matéria seca.

O consumo de alimento é ainda influenciado pela composição da dieta e sistema de criação utilizado, em manejo extensivo essa inibição é resultante
da redução na atividade de pastejo.

Vários estudos mostraram a redução expressiva na ingestão voluntária de alimentos pelas vacas leiteiras em ambiente acima de 30ºC:

Quadro 1: Efeito do stress térmico no consumo de alimentos
Efeito do stress térmico no consumo de alimentos

A redução no consumo de alimentos, principalmente forragens, apresentam severos problemas metabólicos que afetam a dinâmica de funcionamento do rúmem, tais como:

- redução na ruminação;
- pH;
- taxa de acetato:propionato.

Esses fatores, associados a fatores neuro-endócrinos influenciam na digestão.

A literatura cita, que a queda do pH do rúmen de vacas submetidas a estresse térmico, poderá estar associado a redução da ruminação, o que implica na limitação do crescimento microbiano, acarretando um maior tempo de retenção do bolo alimentar na rúmen.

Os estudos relatam, que em geral, em temperaturas elevadas a digestibilidade das forragens aumenta em bovinos, em função do maior tempo de retenção da digesta no rúmen, o que permite um maior aproveitamento da fração alimentar potencialmente digestível, entretanto a redução no consumo de forragens, resulta na perda de nutrientes totais disponíveis para o animal.

Além disso, a eficiência da utilização da energia é reduzida, sendo isto devido aos elevados requerimentos para mantença, resultante da elevada atividade metabólica do corpo para aliviar o excesso de calor. Assim, a respiração acelerada pode aumentar as necessidades para a mantença de 7 a 25%, dependendo da intensidade.

Em vacas lactantes, particularmente no início da lactação, a redução no consumo de energia associado ao aumento nos requerimentos, podem acelerar o catabolismo de gordura, de tal modo que, uma oxidação incompleta de ácidos graxos leva à produção de corpos cetônicos (aceto-acético, beta-hidroxi-butirato e acetona) que, quando produzidos a uma taxa maior do que eliminados, acumulam-se no sangue, reduzindo a sua reserva alcalina, o que pode provocar acidose metabólica.

Ensaios realizados com vacas leiteiras submetidas a altas temperaturas tem evidenciado balanço negativo de nitrogênio. A literatura reporta, que tal observação é decorrente do catabolismo de proteína, objetivando a produção de energia, cujo consumo nesta circunstância encontra-se reduzido e a exigência para mantença elevada.

Um aumento na taxa de eficiência de utilização do nitrogênio de 5 a 15% tem sido observado. Todavia, a hipótese mais provável é que tal aumento é resultante da redução no consumo de alimento, bem como, das taxas de atividades produtivas.

A absorção de nutrientes ao longo do trato gastrointestinal, ainda não tem sido bem quantificado durante o estresse térmico, face às dificuldades de ser
medido o fluxo sanguíneo no rúmen e intestino. Contudo, há evidências de que o fluxo sanguíneo no trato gastrointestinal inferior pode ser influenciado pela combinação entre o nível de consumo e efeito direto da temperatura, já que na
hipertermia além da redução no consumo de alimento, há um aumento na vasodilatação periférica objetivando uma maior perda de calor por via evaporativa e convectiva. Assim, tal ocorrência pode provocar um decréscimo no fluxo sanguíneo no lúmen do trato alimentar e consequentemente uma redução na absorção de nutrientes.

A eficiência na utilização dos alimentos está, entre outras causas, condicionada ao problema da temperatura.

Entre as altas temperaturas externas, nas quais o animal homeotérmico reduz o consumo alimentar aquém do que realmente necessita para a elaboração de utilidades; e entre as baixas temperaturas do ambiente, nas quais os animais consomem alimentos no limite da sua capacidade anatômica para manter constante a temperatura corporal, mas sem excedentes para os processos de produção, situa-se a temperatura ótima do meio para a máxima utilização dos
alimentos.

Tanto em temperaturas elevadas como baixas ocorre queda na produção de origem animal, seja por insuficiência de energia alimentar, seja por indisponibilidade de energia para o processo produtivo. É então fácil conceber a existência de temperatura ótima para maximizar a utilização da matéria-prima pela “máquina animal”.

A literatura cita que a temperatura crítica para o consumo de alimentos por bovinos Holandeses situa-se entre 24 e 26ºC, por Jerseys entre 26 e 29ºC por Pardas Suíças acima de 29ºC e por zebus Brahmas entre 32 e 35ºC. As Holandesas diminuem o consumo em aproximadamente 20% à temperatura ambiente de 32ºC, e cessam-no a 40ºC; nesta temperatura a ruminação decresce.

Alguns trabalhos mencionam que temperaturas altas durante o dia e relativamente baixas durante a noite não deprimem a ingestão total de alimentos por parte dos bovinos, na mesma proporção que uma temperatura constante elevada durante as 24 horas.

A literatura reporta que uma variação diurna de temperatura de 21,5 a 38,5ºC reduz de 20 a 35% a ingestão de alimentos em bovinos Holandeses, havendo pouco efeito, menos de 10% em bovinos Jerseys.

Consumo de água

O aumento no consumo de água é a maior resposta ao desconforto térmico, onde, a água consumida é utilizada primariamente como veículo de dissipação de calor. Sob condições a campo, a ingestão aumenta rapidamente em temperatura ambiente acima de 27ºC, podendo as necessidades alcançarem valores de 1,2 a 2 vezes mais do que os requerimentos da termoneutralidade.

A água é o nutriente mais importante para as vacas em estresse calórico, sendo suas exigências preenchidas através da água metabólica derivada da oxidação de substratos orgânicos nos tecidos, contida nos alimentos e ingerida.

A temperatura ambiente e a umidade relativa afetam os requerimentos de água, assim, a temperatura elevada aumenta a demanda por água, enquanto que umidade relativa baixa aumenta a perda de água através da respiração e
transpiração.

O nível de ingestão de alimentos, a forma física da dieta , qualidade e temperatura da água e status fisiológico do animal, influenciam na ingestão durante o estress térmico.

Quadro 2: Efeito da temperatura da água no consumo em vacas sob estresse
térmico.
Efeito da temperatura da água no consumo em vacas sob estresse térmico
Segundo a literatura, a ingestão de alimentos de boa qualidade, resulta em aumento da taxa metabólica e elevação no requerimento de água para o metabolismo intermediário e termorregulação. Por outro lado, alimentos fibrosos reduzem a taxa de energia e o metabolismo de água, todavia, o incremento calórico poderá aumentar a temperatura e a demanda termorregulatória por água.

O aumento da temperatura ambiente, além de alterar o consumo, provoca uma sensível mudança na reciclagem de água pelas diferentes rotas de eliminação (urina, fezes, superfície corporal e respiração). A variação no balanço da água apresenta como consequência uma significativa alteração no balanço eletrolítico.

Quadro 3: Balanço de água em vacas leiteiras lactantes e secas submetidas a
diferentes temperaturas ambientes.
Balanço de água em vacas leiteiras lactantes e secas submetidas a diferentes temperaturas ambientes

O aumento no consumo de água observado com a elevação da temperatura é decorrente da necessidade de aumentar o efeito da água. Assim, para estimar este efeito, basta que se efetue a seguinte operação:

TC - TA = Vr x Q = CA

Onde:

TC = temperatura do corpo em ºC
TA = temperatura da água em ºC
Vr = valor respiratório em Kcal / litro
Q = quantidade de água ingerida em litros
CA = calor absorvido em Kcal

Estudos mostram que bovinos do mesmo peso requerem maior quantidade de água com o aumento da temperatura. Importante é que o animal possa beber repetidamente, provocando abaixamento da temperatura corporal.

Alguns estudos, mostram que vacas européias em lactação consomem menos água a temperaturas de 32ºC ou superiores. O fato prende-se a um menor rendimento em leite e consumo de alimentos, em condições de afrontamento térmico.

As vacas indianas em contraste aumentam o consumo de água quando aumenta a temperatura ambiente. Todavia, o gado indiano consome menos água que o europeu em valor absoluto e também por unidade de matéria seca ingerida. Diferenças em consumo de água encontram-se nas diversas raças
de gado bovino europeu.

A conclusão das observações é que a tolerância ao calor está associada a um baixo consumo líquido e a sensibilidade a um maior consumo.

Hábitos de pastejo

A temperatura influi ainda nos hábitos de pastejo dos ruminantes. Verifica que o bovino tem tendência a aumentar suas horas de pastejo noturno, quando ocorrem altas temperaturas diurnas.

A literatura cita, que vacas europeias pastam menos de 3 horas durante o dia, porém 3 vezes mais durante a noite, sob temperatura média diária oscilando de 29 a 32ºC e noturna de 21,5 a 27ºC, com temperatura média diária oscilando de 20 a 24ºC, e noturna de 14 a 18ºC; o pastejo durante o dia e de 2 a 3 vezes o tempo despendido nos dias quentes.

Estes resultados sugerem a necessidade de se adequar o manejo dos animais, para que o pastejo possa ser feito no maior número possível de horas e para que os animais desfrutem de sombras no período mais quente do dia.

Em síntese, a máquina-animal homeotérmica experimenta dificuldades para fazer a conversão de alimentos em utilidades no ecossistema de pasto nos trópicos, porque, ou não se adaptam ao calor, ou porque reduzem o consumo de matéria-prima alimentar ou ainda desviam a energia dos alimentos para outras funções prioritárias que não as de processo produtivo, mais ou menos acentuadamente de acordo com seus recursos anatomorfofisiológicos específicos, sugerindo ajustamentos estruturais e genéticos.

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Fonte consultada:

Apostila de Bioclimatologia Animal, de Prof. Luís Fernando Dias Medeiros e Profa. Debora Helena Vieira, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. 

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