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Postado em: 02/09/2019

Você sabe qual é a principal questão de bem-estar animal em uma fazenda leiteira?

A especialista em bem-estar animal, Temple Grandin identificou a claudicação, também chamada de manqueira, como a maior questão de bem-estar animal que a indústria de laticínios enfrenta atualmente. "É um grande número 1", disse ela. "A manqueira está no topo da minha lista."

Temple Grandin, é uma das maiores autoridades globais em bem-estar animal. Grandin revolucionou as práticas de manejo de animais vivos em fazendas e abatedouros, ganhando respeito dentro e fora do agronegócio. Ela é bacharel em psicologia pelo Franklin Pierce College e mestre em Zoologia na Universidade Estadual do Arizona, sendo Ph.D. em zoologia pela Universidade de Illinois, desde 1989.

Segundo ela, algumas fazendas fazem um bom trabalho em manter a claudicação sob controle, acrescentou. "Mas há outros lugares onde a claudicação é absolutamente horrível."

As fazendas problemáticas, disse ela, costumam ter instalações antigas, como por exemplo, free-stall onde as dimensões da baia são muito pequenas.

"O manejo é um grande fator". É importante manter as baias e os currais de forma que as vacas fiquem bem acomodadas - e respeitar as dimensões adequadas. Algumas fazendas fazem um trabalho melhor que outras. Isso não está necessariamente relacionado ao tamanho da fazenda, ressalta. Muitas vezes, os problemas ocorrem em fazendas com falta de pessoal.

Grandin disse que uma fazenda leiteira deve se esforçar para manter a incidência de claudicação em 5% ou menos. Ela passou a definir uma vaca "coxa" como aquela que pontua 3, 4 ou 5 na escala de claudicação Zinpro de cinco pontos. Atribuindo uma nota de 1 (postura e marcha normal) a 5 (manqueira severa) permite identificar as vacas que ainda não apresentam manqueiras mas já estão com algum tipo de lesão de casco.

Ela também descreveu algumas visitas recentes que fez a fazendas leiteiras no Colorado. Eram propriedades bem administradas e o que as pessoas considerariam "grandes" em tamanho. Em algumas fazendas, as vacas estavam em instalações ao ar livre, em outros as vacas estavam em confinamento. Informalmente, depois de examina-las, ela determinou que o nível de claudicação geralmente estava na faixa de 5% ou menos.

Em todo os EUA, há uma enorme variação entre fazendas. Alguns estudos apontaram a incidência de claudicação na indústria de laticínios entre 25 e 30%.

Impacto da claudicação nas medidas de bem-estar animal:

- Comportamento alimentar e ruminação


O padrão de alimentação é um comportamento essencial que influencia a nutrição e o bem-estar da vaca. As medidas para o comportamento alimentar estão relacionadas à duração e frequência de tempo comendo e no número de visitas ao cocho após o parto.

Vacas com claudicação clínica reduziram significativamente o tempo, a frequência e a taxa de alimentação em comparação com as sadias. Outro estudo indicou que a menor ingestão de silagem e menos tempo gasto na alimentação ocorreram em vacas com alterações leves na locomoção antes da condição se tornar severa.

As vacas com problemas de locomoção passaram menos tempo em pé comendo após o parto em comparação com as sadias. Esses eventos podem ser mais evidentes durante o nível de pico de produção, quando há maior risco de incidência de claudicação.

A ruminação é uma necessidade comportamental inata no gado e, portanto, considerada uma medida vital na avaliação de seu bem-estar. As vacas passam em média 8 horas diárias ruminando com os benefícios fisiológicos semelhantes ao sono em humanos e alguns estudos indicaram associações negativas entre claudicação e ruminação, enquanto os resultados de outros autores não mostraram relação.

- Comportamento de deitar

Tal comportamento é uma atividade importante em vacas leiteiras, com benefícios como condições para descansar após a ordenha, ruminação eficaz, maior espaço para o movimento de outros animais do rebanho e aumento da perfusão da glândula mamária. As condições que influenciam a duração que a vaca fica deitada podem afetar o tempo dedicado a outras atividades.

Por exemplo, a permanência prolongada em pisos duros e superfícies de repouso não higiênicas pode afetar a saúde dos cascos e o subsequente desenvolvimento de lesões nesta região. Evidências mostraram que vacas com claudicação ficam deitadas por períodos mais longos em comparação com animais saudáveis de rebanho. Elas também exibem crises frequentes como sinais do desconforto contínuo.

No geral, a associação entre claudicação e comportamento de deitar requer mais investigação.

- Interação social e comportamento de estro

Uma interação natural do rebanho é a atividade social manifestada na forma de auto-limpeza e lambida caudal. As vacas que apresentam problemas de claudicação estão sofrendo pelas dores, de forma que são menos propensas a expressar esse comportamento em comparação com os outros animais.

O comportamento do estro é outra característica importante afetada em vacas com manqueira. Eventos como ciclicidade tardia e baixa expressão de estro decorrentes da perturbação da função hormonal e do desenvolvimento folicular foram relatados em vacas que apresentavam claudicação em comparação com os animais sadios do rebanho.

Lesões nos cascos causam dor, aumento da concentração plasmática de cortisol e atividade atrasada do hormônio luteinizante, levando a um comprometimento do crescimento folicular. Esse distúrbio na atividade ovariana pode atrasar a expressão e a detecção do estro, necessárias para o sucesso das inseminações.

No entanto, as perdas de produção em vacas leiteiras que apresentam claudicação estão interligadas, pois os comportamentos alimentares podem levar à redução da ingestão de matéria seca e balanço energético necessário para foliculogênese e ovulação.

- Condição do jarrete

As condições do jarrete têm sido cada vez mais avaliadas como um indicador do bem-estar do gado leiteiro. Especialmente, o aspecto lateral do jarrete é composto de poucos tecidos e músculos gordurosos, tornando a área propensa a lesões traumáticas. Tais lesões são geralmente referidas como "lesões de jarrete" e aparecem em forma de perda de pelo, lesões na pele, feridas visíveis, inchaço localizado ou extenso. O escore da condição do jarrete (HCS) é usado na classificação da gravidade das lesões .

Tais lesões  têm sido relatadas como importantes causas de claudicação em rebanhos leiteiros. Monitorar a prevalência de ambas as condições poderia melhorar a provisão de um melhor bem-estar, pois os fatores que influenciam sua ocorrência são semelhantes.

Por exemplo, tanto a gravidade das lesões quanto o risco de claudicação podem estar relacionados ao conforto da superfície onde a vaca se deita. O aumento da duração do tempo deitada em vacas que apresentam manqueira em superfícies duras e abrasivas pode precipitar ferimentos no jarrete.
A claudicação também pode resultar de ferimentos graves no jarrete, possivelmente conectados a escorregões e quedas quando as vacas são alojadas em pisos altamente escorregadios. Portanto, medidas preventivas para lesões de jarrete poderiam potencialmente reduzir a ocorrência de claudicação, melhorando assim o bem-estar das vacas leiteiras.

- Higiene das pernas

Um bom bem-estar animal requer animais livres de desconforto e doenças. Manter a limpeza do rebanho é uma abordagem fundamental para garantir a saúde animal adequada. No entanto, essa prática continua sendo um grande desafio em instalações intensivas de produção leiteira, devido à contaminação persistente de baias e superfícies de repouso com esterco e urina. No nível da vaca, a higiene das pernas é usada como uma estimativa da limpeza geral do rebanho.

Sistemas que avaliam a relação entre higiene das pernas e ocorrência de manqueira mostram maiores chances de ocorrência de claudicação clínica na ausência da higiene.

Fatores que podem influenciar a falta de higiene das pernas incluem projetos inadequados de pisos de concreto, uso de tapetes de borracha e frequência de limpeza. No entanto, mudanças no tempo dedicado a atividades essenciais em vacas com claudicação podem ser um fator importante. 

- Escore de condição corporal

Com base na dor manifestada, frequência reduzida de visitas ao cocho, menor duração da alimentação e capacidade reduzida de competir pelo espaço de alimentação, espera-se que as vacas com claudicação tenham redução no escore de condição corporal (ECC). No entanto, o evento poderia ser o contrário, com vacas com baixo ECC provavelmente desenvolvendo doenças que causam claudicação.

Isso tem a ver com a composição do coxim digital (almofada gordurosa), que é um tecido adiposo que anula as forças contusivas direcionadas ao osso dos pés. Portanto, o afinamento da região dos coxins pela mobilização de gorduras durante o balanço energético negativo pode predispor à incidência de doenças de casco.

Assim, fica claro que a claudicação continua sendo uma condição com impacto e carga significativos para o bem-estar ideal em vacas leiteiras. Com a maioria dos eventos  atribuídos a lesões nos pés ou nos cascos, a avaliação da condição dolorosa requer técnicas objetivas para a detecção precoce de vacas em desconforto antes do desenvolvimento de sinais óbvios de claudicação.

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Fontes consultadas:

Temple Grandin speaks bluntly about lameness (https://www.dairyherd.com/article/temple-grandin-speaks-bluntly-about-lameness)

The Impact of Lameness on Dairy Cattle Welfare: Growing Need for Objective Methods of Detecting Lame Cows and Assessment of Associated Pain (https://www.intechopen.com/books/animal-welfare/the-impact-of-lameness-on-dairy-cattle-welfare-growing-need-for-objective-methods-of-detecting-lame-)

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